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“O CASO DO VALE DO CUIÁBA EM PETRÓPOLIS DE 2011: UMA INTERVENÇÃO EM PSICOLOGIA DO DESASTRE”

“O CASO DO VALE DO CUIÁBA EM PETRÓPOLIS DE 2011: UMA INTERVENÇÃO EM PSICOLOGIA DO DESASTRE”

XXXIV Encontro Anual Helena Antipoff

PSICOLOGIA DAS EMERGÊNCIAS E DESASTRES

“O CASO DO VALE DO CUIÁBA EM PETRÓPOLIS DE 2011: UMA INTERVENÇÃO EM PSICOLOGIA DO DESASTRE”

11 de janeiro de 2011 – o dia que não acabou


Relato Atividades Atendimento Psicológico Período das Chuvas de Janeiro de 2011

 O presente relatório refere-se as atividades e postos de observação dos Psicólogos José Carlos Tavares da Silva e Mauricio Forster José Maria, no período de Janeiro de 2011 a Março de 2011, constituídos por reuniões semanais às quartas-feiras no período da tarde.

Foram atendidas 30 pessoas abrigadas nas dependências da igreja católica do Cuiabá variando em gênero, escolaridade, faixa etária. Todos apresentavam grandes perdas materiais e alguns perdas afetivas. Efetivamente acompanhamos 8 pacientes (cinco adultos e três crianças). Os demais participantes do abrigo mostraram-se avessos ou indiferentes ao trabalho psicológico. Alguns perguntavam-nos se nós éramos quem fazia cadastros para o governo, se éramos nós que distribuíamos bens, confundindo-nos com os trabalhos dos agentes de governo e com os assistentes sociais.

Os relatos foram variados. Os principais tinham referências a perda dos pertences materiais (mais presente nos primeiros dias); perda de parentes (mais presente nos últimos dois meses); queixa de abandono por parte das autoridades e queixa de ausência de soluções de continuidade para reorganizar a vida em família e em comunidade.

A visão do problema utilizada foi de ordem multifocal. Do ponto de vista da Psicologia Comunitária percebeu-se uma ruptura profunda nas malhas do tecido social que unia aqueles afetados pela enxurrada, durante a noite e madrugada, do dia 11 para 12 de janeiro de 2011. A ordem afetiva de natureza tribalista, conforme preconizado por Mafesoli, constituíram as franjas a partir das quais se pretendeu reconstruir o tecido social, numa clara e visível predominância em relação aos aspectos orgânicos/estruturais dos conceitos de comunidade de Durkheim e Weber.

Do ponto de vista dos atendimentos pontuais, na primeira semana, não fizemos atendimentos locais. Participamos de reuniões de organização e formação das forças-tarefa que iriam se encaminhar aos abrigos. Nesta primeira semana de 12 a 17 de janeiro aproximadamente, deu-se prioridade aos atendimentos médicos (muitos politraumatizados pela força das chuvas) .

Do ponto de vista dinâmico, a tragédia neste local resultou de uma enxurrada de aluvião de um misto de lama e detritos que desceram das montanhas de Teresópolis em uma calha de caminho único acelerada pela altura de aproximadamente 400m acima do leito principal do rio em cuja bacia se construiu inúmeras residências, de todo tipo, tamanho e valor. As primeiras comunidades atingidas descobriu-se depois serem comunidades bem primitivas, do tipo classificável como quilombolas, cuja sobrevivência se dava principalmente pelo escambo ou troca de alimentos hortigranjeiros e de origem animal localmente obtidos pelo labor destes moradores.

Seguindo rio abaixo em direção ao centro de Itaipava, surgem construções populares de comunidade trabalhadora, mantinham também os aspectos de escambo e troca de alimentos e bens entre os membros, mas já participando de sistemas públicos de atenção social. As atividades laborais destas pessoas incluíam também a lida com animais em haras de grande valor e importância no cenário nacional. Também atuavam como jardineiros, caseiros, empregadas domésticas nos lares mais sofisticados da região destinados ao descanso e férias dos seus proprietários. Alguns tinham trabalho na hotelaria local.

Ao impacto da comoção e à medida que tomavam consciência das dimensões da tragédia, surge como principal origem da desorganização psicológica a descrença de que receberiam ajuda eficaz. Alguns verbalizaram a indiferença do sistema de governo com frases de efeito tais como “Eles vem aqui, prometem e só fica nisso”(Sic). Nos primeiros momentos era visível o sentimento de abandono e de solidão. Contabilizaram-se algo entre 73 e 85 óbitos, num sistema frenético de atualização de dados pela mídia e não se sabe até hoje, de fato, quantos exatamente se foram na enxurrada. Corpos não foram encontrados, alguns corpos foram encontrados durante as buscas de cadáveres de cavalos pois se estimulou que se encontrassem o máximo destes possível dado o interesse dos proprietários para requerem o valor do seguro a ser pago pelos mesmos. Houveram esforços de moradores, as  companhias de bombeiros, da defesa civil demonstraram bravura, competência e foco em seu trabalho, num cenário típico de desolação. Pessoas de posses mais abastadas, com residência próxima ou que possuíam alguma ligação com os proprietários dos haras enviaram suas  pick-ups e maquinarias numa soma de esforços para restabelecer condições mínimas de superação daquele caos.

No caminho de resolução a partir desse clima de arrasamento de uma sociedade, através de doações de muitos anônimos, se obteve condições materiais de sobrevivência. Alugueres sociais foram providenciados para que pessoas tivessem rapidamente onde morar, equipes de profissionais médicos, psicólogos, paramédicos, assistentes sociais, advogados acorreram ao local e deram o suporte possível até que o grupo conseguisse soerguimento do trauma. Crianças e idosos foram mais aderentes às sessões de psicoterapias. Adultos embrenharam-se nos trabalhos de limpeza e reconstrução. Mães, jovens e mulheres se envolveram no trabalho de cozinhar, lavar e passar roupas e se revezar no cuidado com as crianças enquanto não conseguiam outro lugar para se estabelecer.

À medida que os recursos foram surgindo, com o tempo, as pessoas foram deixando os abrigos para outros locais: casas de parentes, casas alugadas pela Prefeitura, já para outros mudar de cidade foi a melhor opção e, neste período de aproximadamente três meses, o abrigo deixou de ser a opção e ficou operando apenas como local para busca por alimentos, água, roupas e outros materiais.

Do ponto de vista da organização do atendimento psicológico, o mesmo se deu em grupos de dois psicólogos por equipe, com escala de horário definida pela coordenação central de um grupo com apoio da sede da regional do CRP05 em Petrópolis, que controlava uma agenda de cobertura de atendimento aos vários abrigos, durante todos os dias da semana, exceção dos domingos por dois motivos: primeiro que os próprios abrigados tinham suas rotinas de comparecimento a eventos religiosos ou visita a parentes. Segundo, os próprios voluntários tinham tarefas a exercer em seus lares. As semanas foram se sucedendo e os abrigos foram se transformando gradativamente em albergues ou dormitórios temporários.

A técnica psicoterápica mais comum utilizada foi a de ouvir e ouvir e permitir que as pessoas pudessem externar suas dores e afetos decorrentes dos horrores que passaram naquela noite e daqueles decorrentes das notícias que vinham num streaming sem freios. Nas sucessivas intervenções procurou-se, com técnicas de psicoterapia focal de base cognitiva, forjar suportes para que encontrassem minimamente algum grau de identidade com o real para que pudessem superar os efeitos dos traumas. Alguns conseguiam entender o pânico sem fantasia, outros se ancoravam na “mágica esperança” de um mundo melhor. Crianças pequenas responderam melhor que muitos adultos. Os adolescentes foram os que mais demonstraram perplexidade. Curiosamente justo aqueles que pretendem mudanças, que são rebeldes por natureza, querem mudar o mundo organizado pelos adultos, não tinham inclinação para sair sozinhos da emblemática perplexidade. Quando em grupos se auto-amparavam. Quando sozinhos não sabiam como proceder. São observações que sabemos pontuais, mas que tem chance de se verificarem em outros indesejáveis eventos traumáticos. Já os idosos abriam seus corações a que os quisessem ouvir. Ancoravam suas sortes em valores espirituais. Os adultos trataram de se envolver em trabalhos, talvez na esperança de esquecer depressa os horrores vividos.

Horrores estes narrados nas diversas oitivas que promovemos. Nestas, um grupo relatou que alguns parentes sobreviveram por que estavam chegando num ônibus e decidiram não descer quando chegaram ao ponto final e que essa decisão de todos permanecerem criou um peso extra e pressionou o solo o suficiente para que não fossem arrastados. Pela manhã observaram que havia em torno desse ônibus uma área escavada em volta pela aluvião com cerca de 80 cm de altura em relação ao piso do ônibus.

Outros relataram que parentes se foram rio abaixo em suas camas ainda em sono, que meninos e meninas foram colocados em caixas d´água para que descessem em curso e alcançassem lugares de socorro. Parte destes relatos debitamos na fantasia para suportar o sofrimento, parte se considerou verdade dentro do quadro de ansiedade e desespero do grupo atendido.

Fato é que famílias perderam seus arrimos e outras famílias se foram na totalidade. O que sobrou de seus lares notou-se ser leito raso de pisos de casas, relógios de luz em postes que indicavam a presença de um lar. E o desalento provocado pela solução proposta pelos governos de se amontoar famílias que usavam o solo para sua sobrevivência em conjunto habitacional urbano.

Esse tecido social, indicativo da cultura rural daquela comunidade sequer foi considerado pelos órgãos governamentais. Viu-se dilapidar valores na ponta das canetas de decretos e de licitações para que pessoas tivessem onde habitar, mas morar e compartilhar das mesmas benesses de uma sociedade rural, não se viu mais.

O tribalismo salvou a vida das pessoas, o agrupamento por meio de valores afetivos, o acolhimento dos parentes que não sofreram perdas materiais, a possibilidade de retomarem seus destinos, de resignificar suas trajetórias ficou no espaço das escolhas possíveis no eixo dos tempos... enquanto isso, a Psicologia fez o que pôde, mas o sentimento de ficar devendo não passou..


Para reflexão: 2022 foi mais do mesmo? Foram 233 óbitos, tragédia concentrada no primeiro distrito, área sul. 15 de fevereiro de 2022, mas um dia que não acabou, e o sentimento de ficar devendo continua


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