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A Vitimização como Comportamento Padrão em Mulheres em Situação de Violência Doméstica Recorrente

A Vitimização como Comportamento Padrão em Mulheres em Situação de Violência Doméstica Recorrente


Introdução

A violência doméstica contra a mulher constitui uma grave violação dos direitos humanos e um problema de saúde pública no Brasil. Estudos indicam que muitas mulheres, ao enfrentarem agressões recorrentes, desenvolvem comportamentos de vitimização que perpetuam o ciclo de violência. Este artigo aborda as razões pelas quais a vitimização se torna um comportamento padrão em mulheres submetidas a violência doméstica recorrente, analisando fatores psicológicos, sociais e culturais, e apresenta estatísticas relevantes no contexto brasileiro.

Compreendendo a Vitimização em Contextos de Violência Doméstica

A vitimização refere-se ao processo pelo qual indivíduos se percebem e são percebidos como vítimas, influenciando seu comportamento e interação social. No contexto da violência doméstica, a vitimização pode manifestar-se de diversas formas:

• Vitimização Primária: Resultante da agressão direta sofrida pela mulher, seja física, psicológica, sexual ou patrimonial.

• Vitimização Secundária: Ocorre quando a vítima, ao buscar ajuda, enfrenta atitudes de descrédito, culpabilização ou negligência por parte de instituições ou indivíduos, agravando seu sofrimento (Molina et al., 2024).

Fatores Contribuintes para o Comportamento de Vitimização

Fatores Psicológicos

Mulheres em situações de violência recorrente frequentemente desenvolvem transtornos como depressão, ansiedade e baixa autoestima. A exposição contínua à violência pode levar à internalização de crenças de impotência e desvalorização, dificultando a ruptura com o ciclo de agressões (Oliveira & Pereira, 2024).

Fatores Sociais e Culturais

Normas culturais que reforçam a submissão feminina e a tolerância à violência contribuem para a perpetuação da vitimização. Além disso, a dependência financeira e emocional do agressor, bem como o medo de retaliação ou julgamento social, podem impedir a mulher de buscar ajuda ou denunciar a violência (Molina et al., 2024).

Estatísticas sobre Violência Doméstica no Brasil

Dados recentes evidenciam a gravidade da violência doméstica no país:

Prevalência: Cerca de 25,4 milhões de brasileiras já sofreram violência doméstica provocada por homens em algum momento da vida (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023).

Aumento de Casos: Em 2023, foram registradas 258.941 ocorrências de violência doméstica, representando um aumento de 9,8% em relação ao ano anterior (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023).

Subnotificação: Estima-se que muitos casos não sejam reportados devido ao medo, vergonha ou desconfiança nas instituições, o que sugere que os números reais possam ser ainda maiores (DataSenado, 2023).

O Ciclo da Violência e a Revitimização

A psicóloga Lenore Walker descreve o ciclo da violência em três fases:

1. Acúmulo de Tensão: Pequenos conflitos e agressões verbais aumentam a tensão no relacionamento.

2. Episódio Agudo de Violência: Ocorre a agressão física ou psicológica intensa.

3. Fase de Lua de Mel: O agressor demonstra arrependimento e afeto, levando a vítima a acreditar na mudança do comportamento (Walker, 1979).

Esse ciclo tende a se repetir, e a esperança de mudança, combinada com os fatores já mencionados, contribui para a manutenção do comportamento de vitimização.

Estratégias para Romper o Ciclo de Vitimização

Para auxiliar mulheres a romperem com o ciclo de violência e vitimização, são necessárias abordagens multidisciplinares:

Apoio Psicológico: Terapias que fortaleçam a autoestima e promovam a autonomia da mulher.

Assistência Jurídica: Orientação sobre direitos e medidas protetivas disponíveis.

Empoderamento Econômico: Programas que incentivem a independência financeira, facilitando a saída de relacionamentos abusivos.

Sensibilização Social: Campanhas educativas que desconstruam estereótipos de gênero e promovam a igualdade.

Considerações Finais

A vitimização como comportamento padrão em mulheres submetidas à violência doméstica recorrente é um fenômeno complexo, influenciado por múltiplos fatores. Compreender esses aspectos e implementar estratégias eficazes de apoio e prevenção são passos essenciais para a redução da violência de gênero no Brasil.

Referências

DataSenado. (2023). 10ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. Recuperado de https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2023/11/21/datasenado-aponta-que-3-a-cada-10-brasileiras-ja-sofreram-violencia-domestica

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2023). Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil - 4ª edição. Recuperado de https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2023/03/visiveleinvisivel-2023-relatorio.pdf

Molina, L. S., Gonçalves, M. C. S., & Melo, G. M. (2024). Vitimização secundária contra a mulher: práticas estatais perpetuadoras da desigualdade e da violência de gênero. Direito em Revista, 9, 37-58. Recuperado de https://revistas.icesp.br/index.php/DIR_REV/article/download/5456/3122

Oliveira, J., & Pereira, C. R. (2024). A vitimização secundária de mulheres que retornam ao relacionamento abusivo. Revista Interamericana de Psicologia, 58(2), e1829. Recuperado de https://journal.sipsych.org/index.php/IJP/article/download/1829/1147

Walker, L. E. (1979). The Battered Woman. New York: Harper and Row.


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