Emoções e qualidade de vida em uma sociedade em recuperação
Passados os anos mais críticos da pandemia de Covid-19, seria razoável supor que a saúde mental da população teria retornado a níveis pré-crise. A realidade, no entanto, mostra um cenário diferente: a ansiedade não apenas persistiu, como se consolidou como uma das principais marcas emocionais do período pós-pandêmico.
Segundo o Global Mind Project, o Brasil figura entre os países com pior bem-estar mental do mundo, ocupando as últimas posições do ranking global ao lado da África do Sul e do Reino Unido — um retrato de que o sofrimento psíquico coletivo não se dissolveu com o fim da emergência sanitária1.
Da crise sanitária à crise emocional crônica
Durante o auge da pandemia, estudos brasileiros já revelavam números alarmantes: uma pesquisa com mais de 45 mil adultos identificou que 52,6% se sentiam frequentemente ansiosos ou nervosos, e 40,4% relatavam tristeza ou depressão frequentes2. O que chama atenção, contudo, é que esses índices não regrediram na velocidade esperada após o fim das medidas de isolamento. A Organização Mundial da Saúde estimou um crescimento de 25% na prevalência global de ansiedade e depressão em decorrência da pandemia, e especialistas descrevem o fenômeno como um verdadeiro \"trauma coletivo\"3.
No Brasil, esse trauma se traduziu em dados concretos e crescentes no mundo do trabalho. Segundo o Ministério da Previdência Social, os afastamentos por transtornos mentais alcançaram 472.328 casos em 2024 — o maior número em dez anos, com aumento de 68% em relação a 2023. A ansiedade, isoladamente, foi responsável por 141.414 licenças, um salto de mais de 400% em uma década, superando até mesmo os episódios depressivos como principal causa de afastamento4,5.
Por que a ansiedade não passou
Diversos fatores explicam essa permanência dos sintomas ansiosos muito depois de superada a fase aguda da pandemia:
•Luto não elaborado: mais de 700 mil mortes no Brasil deixaram cicatrizes emocionais profundas, muitas vezes sem espaço social adequado para o processamento do luto.
•Insegurança financeira persistente: o aumento do custo de vida — os alimentos subiram 55% entre 2020 e 2024 — mantém um estado de alerta crônico associado à sobrevivência material.
•Reorganização abrupta de rotinas e vínculos: o fim de relacionamentos (aumento de 16% nas separações durante a pandemia), mudanças no trabalho e o crescimento da informalidade impuseram novas fontes de instabilidade emocional.
•Sequelas neuropsicológicas da própria doença: pacientes que contraíram Covid-19 apresentaram níveis de ansiedade significativamente mais altos que os não infectados, sugerindo um componente biológico associado à chamada \"covid longa\"6.
Como resume o psiquiatra André Botelho, do Hospital Sírio-Libanês: \"A pandemia revelou de forma clara que nossas certezas sobre a vida não são absolutas. Trouxe temor, incertezas sobre o futuro e preocupação intensa. Por isso, é natural que a ansiedade tenha aumentado, pois seus sintomas estão diretamente ligados a esses medos\"7.
O papel das emoções na equação da qualidade de vida
A literatura em psicologia da saúde mostra uma relação direta e bidirecional entre regulação emocional e qualidade de vida: quanto maior a dificuldade em processar emoções como medo, tristeza e frustração, maior o impacto negativo sobre o bem-estar percebido — e vice-versa.
Estudos com universitários brasileiros confirmam que houve piora significativa em todos os escores de qualidade de vida, estresse e depressão quando comparado o período anterior e durante a pandemia, com redução expressiva dos níveis de atividade física, um fator protetor conhecido contra a ansiedade8.
Populações mais jovens e mulheres aparecem consistentemente como os grupos mais vulneráveis nesses levantamentos. A pesquisa Juventudes e Pandemia do Coronavírus, com mais de 16 mil participantes entre 15 e 29 anos, identificou que 63% relataram quadros de ansiedade, 50% exaustão e cansaço crônicos, e 36% insônia — sintomas que se mantiveram elevados mesmo no período pós-pandêmico9.
Caminhos possíveis
Ainda que o quadro seja preocupante, os mesmos estudos apontam fatores protetores relevantes: prática regular de atividade física, acesso à telepsicoterapia, maior escolaridade, redes de suporte social ativas e menor exposição contínua a notícias angustiantes reduzem consistentemente os níveis de ansiedade. No plano institucional, a publicação da Portaria MTE nº 1.419, que incorporou a saúde mental como componente obrigatório do gerenciamento de riscos ocupacionais (NR-1), sinaliza um movimento de reconhecimento formal do problema como questão de saúde pública e não apenas individual (Poder360, 2025 — ver nota 7).
Considerações finais
O período pós-pandêmico revela, assim, que a ansiedade deixou de ser um sintoma passageiro de crise para se tornar um traço estrutural do sofrimento psíquico contemporâneo. Compreender suas raízes emocionais — o medo não resolvido, o luto silencioso, a insegurança persistente — é essencial não apenas para o cuidado clínico individual, mas para a construção de políticas de saúde mental e educação emocional capazes de restaurar, de fato
Referências
1. Global Mind Project, citado por CNN Brasil, \"Saúde mental dos brasileiros pós-pandemia é uma das piores do mundo\", 2024. https://www.cnnbrasil.com.br/saude/saude-mental-dos-brasileiros-pos-pandemia-e-uma-das-piores-do-mundo/Ansiedade, emoções e qualidade de vida no pós-pandemia
2. Boletim da Academia Paulista de Psicologia, \" O impacto da pandemia da 2022. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-711X2022000200124
3. Correio Braziliense, \"Trauma coletivo: ansiedade e depressão aumentaram 25% após pandemia\", 2024. https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2024/12/7011508-trauma-coletivo-ansiedade-e-depressao-aumentaram-25-apos-pandemia.html
4. G1, \"Crise de saúde mental: Brasil tem maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos\", 2025. https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2025/03/10/crise-de-saude-mental-brasil-tem-maior-numero-de-afastamentos-por-ansiedade-e-depressao-em-10-anos.ghtml
5. Agência Brasil, \"Saúde mental: afastamentos dobram em dez anos e chegam a 440 mil\", 2025. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-03/afastamentos-por-transtornos-mentais-dobram-em-dez-anos-chegam-440-mil
6. Psicologia: Teoria e Prática, \"Fatores associados à saúde mental na população brasileira durante a Covid-19\", 2022. https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1516-36872022000200503&script=sci_arttext&tlng=pt
7. Poder360, \"Afastamentos por saúde mental disparam no pós-pandemia de covid\", 2025. https://www.poder360.com.br/poder-saude/afastamentos-por-saude-mental-dispara-no-pos-pandemia-de-covid/
8. Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, \"Impacto da Covid-19 na saúde mental, qualidade de vida e nível de atividade física de universitários\", 2022. https://rbafs.org.br/RBAFS/article/view/14810
9. Fiocruz, \"Informe II — Situação de saúde da juventude brasileira\", 2025. https://agencia.fiocruz.br/sites/agencia.fiocruz.br/files/Informe%20II%20-%20Sa%C3%BAde%20Mental%20-%20Informes%20sobre%20situa%C3%A7%C3%A3o%20de%20sa%C3%BAde%20da%20juventude%20brasileira%20n2_2025%20(2).pdf